Exposições

Ponto Cego

Ponto Cego

Paulo Vieira

.

 

PONTO CEGO


No universo das redes sociais e dos telefones celulares, pensar em solidao parece algo impossivel, diante de tantas possibilidades de se relacionar com pessoas conhecidas ou estranhas, remotas ou contiguas. Ha quase uma exigencia, uma pressao social para que tenhamos sempre de nos manifestar a respeito de tudo o que nos tange: o trabalho, os amigos, o prato de comida, o cao afetuoso, a chuva que cai impiedosamente do lado de fora da janela. Tudo e partilhado numa dissolucao dos limites entre publico e privado que ameaca os territorios mais intimos de nossas memorias e sentimentos. 

Paulo Vieira diz que nao. E resiste ao fluxo incessante de informacoes e a ansiedade do eterno presente com uma pintura e um desenho soberbos e sem concessoes. Contra o mundo conectado, consumivel e contente, a unica saida possivel e aquilo que Garcia Marquez chamou de um pacto honrado com a solidao. 

O artista e pensador sabe que todo o som e a furia de imagens de nosso tempo significam nada e que as coisas mais importantes da vida continuam no limiar do silencio e da incomunicabilidade que o pensador Havelock Ellis definiu como um mundo arcaico de vastas emocoes e pensamentos imperfeitos. Isolamento e solidao sao coisas diferentes e, a despeito de todas as dificuldades, a solidao nao deve ser meramente entendida como patologia, mas uma busca de formas de comunicacao mais profundas e verdadeiras, sem a mediacao das maquinas e dos discursos vitoriosos que observam a ordem das coisas. 

Na Renascenca, chamavam a isso de sacra conversazione, uma percepcao subjetiva que so pode ser entendida no plano simbolico, na escolha precisa das cores e seus significados, nos sinais existentes de uma vida que afirma sua irredutivel independencia, mesmo que apenas na realidade psiquica e nas dobras dos sonhos e dos pensamentos. Contra a banalizacao da vida, a arte onirica de Paulo Vieira nos obriga a confrontar o tragico, a obscuridade e o desconhecido, onde voragem e vertigem sao apenas outros nomes do mesmo abismo que olha para voce. 


Mauro Trindade